10 novembro 2008

Papos com letrinhas

Concedi entrevista a Laerte Vargas, responsável pelo Blog do Gandavo.

Fica o convite à uma visitinha virtual!

Para pensar poesia

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos





Poema de Manoel de Barros
Retirado do livro: Exercícios de ser criança: O Menino que carregava água na peneira
Editora Salamandra







“Brincar de poesia é varrer a poeira da memória pra baixo de um tapete voador”
Léo Cunha

05 novembro 2008

O presidente negro no porviroscópio lobatiano



A eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos foi entendida por muitas pessoas como uma vitória também dos negros. Longe de enveredar por questões étnicas (uma vez que raça é uma só: a humana, um bocado desumana ultimamente), tal fato me fez recordar uma obra de 1926 chamada O presidente negro, com subtítulo "choque entre as raças".

Publicado inicialmente no formato de folhetim no jornal A Manhã, o livro de Monteiro Lobato já anunciava a eleição de um presidente negro para os Estados Unidos. Os protagonistas da história tomam contato com o futuro através de um porviroscópio (que designação feliz!). Assim, toma-se contato com a disputa pela presidência dos Estados Unidos, no ano de 2228, em que concorrem um negro, um branco e uma mulher e quem vence é o negro.

Como se pode notar, antes mesmo da data prevista por Lobato, elege-se para o cargo de presidente dos Estados Unidos um negro. Efeito da pós-modernidade que abriu espaço para as ditas "minorias" ou jogo de cena para se fortalecer no cenário mundial, o fato é que Lobato tinha mesmo visão de futuro, era um modernista!

Afinal, quem sabe se Lobato não roubou esse porviroscópio da canastrinha da Emília, olhou para 2008 e na hora de escrever não errou para 2228??

Seja lá como for fica a dica de leitura de 1926, mas que traz uma temática tão atual. Bem acho melhor eu fechar minha torneirinha de asneiras por hoje!